Cláudio A. Franco, researcher at the Biomedical Research Centre (CBR) and lecturer at the Faculty of Medicine of the Universidade Católica Portuguesa, wrote an opinion article titled “The Unknown” on the occasion of yesterday’s celebration (November 24th) — the National Day of Scientific Culture.
O Desconhecido
Navegamos para o desconhecido, atormentados por Adamastores intemporais.
No Dia Nacional da Cultura Científica, celebramos a criatividade da mente humana que nos impele a quebrar fronteiras e desmitificar o desconhecido.
Desde sempre, o desconhecido tanto nos fascina como nos assusta e atormenta. Nesta inquietação, a mente humana procura padrões e respostas que ajudem a explicar o mundo que nos rodeia e as causas por detrás dos eventos que presenciamos. Primordialmente, o ser humano recorria a mitos que tentavam racionalizar e apaziguar as nossas ansiedades individuais e coletivas. Mas ao longo dos séculos, a nossa intrínseca necessidade de descobrir e entender foi-se aguçando, e com Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton, entre muitos outros, o método científico, ancorado na formulação de hipóteses, experimentação e interpretação, consolidou-se, demonstrando o seu valor como uma força impulsionadora do desenvolvimento e conhecimento, com a enunciação e implementação de teorias que explicam o visível e o invisível.
O desenvolvimento tecnológico que o método científico proporciona está bem visível no nosso quotidiano e é, em geral, amplamente reconhecido na sociedade. Porém, o que é menos claro para a sociedade é que na génese de cada conquista está a criatividade da mente humana, com a sua capacidade de imaginar o desconhecido. Nesta fronteira do surreal, onde convivem um turbilhão de ideias, a ciência torna-se darwiniana e a diferença entre brilhantismo e irrelevância é a evidência. Há uma competição constante entre modelos e teorias, mas apenas as corretas – aquelas que são apoiadas com provas – é que verdadeiramente quebram fronteiras e se multiplicam em progresso e novo conhecimento. Por vezes é necessário esperar largos anos até que desenvolvimentos tecnológicos sejam capazes de fornecer as evidências que demonstram uma hipótese. Como no caso de Albert Einstein, que propôs a teoria da relatividade em 1905 e só em 1919 foi possível demonstrar a sua validade. Porém, apesar do frenesim do sucesso, é necessário compreender e aceitar que trabalhar na fronteira do desconhecido implica falhar e errar. Demonstrar que as nossas hipóteses estavam erradas, eliminando-as, também contribui para a busca da hipótese certa. Mesmo que, no fim, a História só lembre a hipótese e a descoberta certa, o sucesso é também alcançado nos ensinamentos retirados de muitas outras erradas.
E a necessidade de continuarmos a fazer ciência ainda está longe de terminar. Apesar de todo o progresso na compreensão do desconhecido, muito resta a desvendar. Os dados indicam que 80% do Universo é constituído por matéria/energia escura que desconhecemos por completo. O mesmo acontece dentro de nós. Entendemos o funcionamento das células do nosso cérebro, mas não sabemos como conseguimos pensar, imaginar e ter consciência de existirmos.
Hoje, porém, o valor da evidência parece ter perdido a sua aura, em particular, nas redes sociais e na política. A má-fé aliada à utilização abusiva de novas tecnologias, como a inteligência artificial generativa, cria ilusões, deturpa factos e fabrica perceções para desinformar e gerar confusão, reavivando velhos Adamastores. Cabe-nos, a todos os cidadãos, reafirmar o poder do método científico como garante dum progresso e desenvolvimento solidamente ancorado em evidência.
Imaginar o impossível é o motor do desenvolvimento humano.
Celebremos juntos o espírito criativo neste Dia Nacional da Cultura Científica.